COVID-19 & iECA/BRA

O uso de inibidores da ECA e BRAs aumentaria o risco de piora do COVID-19?

Os coronavírus SARS-CoV-1 e SARS-CoV-2 responsáveis, respectivamente, pela epidemia de SARS em 2003 e pela atual pandemia que teve início em dezembro de 2019 (COVID-19), apresentam em sua patogênese a capacidade de se ligar ao receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2) expresso na superfície celular.

A partir disso, foi postulado que o uso de inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona, como inibidores da ECA (iECAs) e bloqueadores do receptor da receptores da angiotensina (BRA), poderia alterar níveis da ECA2 e a expressão de seus receptores; e, com isso, ser responsável por um agravamento da COVID-19.

A questão foi levantada a partir da observação de uma alta representatividade de pacientes mais graves com COVID-19 sendo portadores de hipertensão. Segundo um dos maiores estudos de casos na China, com 1099 pacientes com COVID-19, foi estimada uma prevalência de cerca de 15% de paciente com hipertensão. Cabe ressaltar que essa estimativa é menor que a prevalência de hipertensão observada em outras infecções virais e na população geral na China. Apesar disso, estudos populacionais apontam que apenas 30-40% dos pacientes hipertensos na China recebem tratamento anti-hipertensivo e 25-30% fazem uso de iECAS ou BRAs.

 A expressão da ECA2 foi identificada no pulmão, principalmente em células alveolares do tipo II, o qual seria o local predominante da ação inicial do SARS-CoV-2. Além do pulmão, a ECA2 é também expressa no coração, epitélio intestinal, endotélio vascular e rins, o que sugere um potencial para atuação do vírus ao entrar na corrente sanguínea, e poderia contribuir para a disfunção de múltiplos órgãos observada em casos mais graves da COVID-19. O vírus SARS-CoV-2, além de usar a ECA2 como mecanismo de entrada inicial nas células, parece também atuar interferindo na expressão da ECA2, desabilitando seus efeitos protetores intrínsecos nos órgãos, o que promoveria o agravamento do dano a órgãos-alvo durante a piora clinica da COVID-19.

Em condições normais, a função da ECA2 nos pulmões parece ser mínima, mas pode estar estimulada em condições patológicas. Apesar da semelhança estrutural das ECA e ECA2, a ação dos iECAs e BRAs não parece ter impacto sobre os níveis da ECA2 ou sua atividade. Alem disso, ainda são escassos estudos que mostrem o efeito de iECAs e BRAs na expressão ou atividade da ECA2 no pulmão. No entanto, em modelos animais, o dano pulmonar induzido pela exposição ao SARS-CoV-1 foi atenuado ao bloquear a via da renina-angiotensina-aldosterona.

Com base nas evidências atuais, a recomendação quanto à não-suspensão dos iECAs e BRAs fica clara, tendo em vista os riscos da retirada desses medicamentos em pacientes estáveis e o potencial benefício do uso dessa medicação em pacientes acometidos por uma infecção pelo SARS-CoV-2.

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