MANEJO CLÍNICO DA COVID-19

A doença causada pelo vírus SARS-CoV-2 (COVID-19) pode ter uma apresentação muito variável, podendo ser assintomática ou com sintomas leves até levar ao óbito em poucos dias. Os sintomas mais comuns são febre, fadiga, tosse (seca ou produtiva), anorexia, mialgia, astenia, dor de garganta, congestão nasal, cefaleia e dispneia. Podem estar presentes, apesar de menos comuns, diarreia, náuseas e vômitos. Idosos e pacientes imunossuprimidos podem cursar com sintomas atípicos, como não apresentar febre, dispneia ou sinais de desidratação, por exemplo. De acordo com um estudo sobre manifestações clínicas da COVID-19, cerca de 98% dos pacientes apresentavam febre, em sua maioria acima de 38 °C. Além disso, tosse representava 76% das queixas, dispneia em 55% e fadiga e dores musculares em 44% dos pacientes. O maior relato de casos de COVID-19 do Centro de Controle e Prevenção de Doenças Chinês reportou 72.314 casos e observou 81% tinham apresentação com sintomas leves. A taxa de mortalidade foi de 2,3%, sendo que a partir de um subgrupo representando 5% com quadro grave com insuficiência respiratória, choque séptico e disfunção de múltiplos órgãos, o que resultou em 50% de óbitos nesse subgrupo.

O período inicial da infecção pelo SARS-CoV-2 envolve um período de incubação, seguido de sintomas leves e geralmente inespecíficos, como fadiga, mal-estar, febre e tosse seca. Durante esse período inicial, o SARS-CoV-2 se estabelece, multiplica no hospedeiro, aumentando o número de copias, especialmente no trato respiratório.

O diagnóstico nesta fase inicial inclui análise de amostra do trato respiratório por PCR, sorologia para anti- SARS-CoV-2 IgG e IgM, além do rastreio com exames de imagem do tórax, hemograma completo e testes da função hepática. O hemograma completo pode identificar linfopenia e neutrofilia, sem outras alterações significativas.

O tratamento inicial é principalmente para o alívio sintomático.

Em um segundo estágio da COVID-19, a doença pulmonar já está estabelecida, assim como a multiplicação viral e a ativação inflamatória localizada no pulmão. Nesta fase, os pacientes desenvolvem uma pneumonia viral, manifestando sintomas como febre alta e tosse, e possivelmente hipóxia, com PaO2/ FiO2<300 mmHg. A hospitalização poderá ser necessária nessa fase para melhor suporte hemodinâmico, observação e tratamento otimizado.

Nessa segunda fase, infiltrados bilaterais ou lesões opacas em vidro fosco podem ser identificados através da radiografia de tórax ou tomografia computadorizada. O hemograma completo pode mostrar piora da linfopenia e transaminases elevadas. Marcadores inflamatórios séricos podem começar a aumentar. A procalcitonina sérica pode estar normal a baixa na maioria das pneumonias causadas pelo SARS-CoV-2

O tratamento nessa fase teria enfoque em medidas de suporte e terapias antivirais disponíveis, como o Remdesivir. Caso não haja hipóxia associada ao quadro de pneumonia, deve-se evitar o uso de corticosteróides. Em caso de hipóxia, o uso de ventilação mecânica e a terapia com corticosteroides parece ser uma combinação benéfica.

Em um terceiro estágio da COVID-19, caracteriza-se um estado de hiperinflamação sistêmica com manifestações extra-pulmonares. Sendo um estágio mais avançado e grave da doença, podem ocorrer a afecção de órgãos, como miocardite, até distúrbios sistêmicos, como choque cardiogênico, vasoplegia e colapso cardiopulmonar.

A investigação diagnostica é voltada aos órgãos ou sistemas afetados. No exame de sangue, os marcadores inflamatórios devem estar bastante elevados, como IL-2, IL-6, IL-7, G-CSF (fator estimulador de colônias de granulócitos), MIP1 (proteína inflamatória macrofágica)-α, TNF- α, proteína C reativa, além do aumento importante nos níveis séricos de ferritina e D-dímero. A troponina e o NT-proBNP também podem estar elevados.

O tratamento nessa fase seria com o uso de agentes imunomoduladores para reduzir a inflamação sistêmica na tentativa de frear a disfunção e o dano a múltiplos órgãos. O uso de corticosteróides pode ser combinado a inibidores de citocinas, como Tocilizumab (inibidor dos receptores da IL-6) ou Anakinra (antagonista do receptor da IL-1). A imunoglobulina intravenosa também poderia ser utilizada no intuito de modular o sistema imune de maneira sistêmica a fim de resolver um estado hiperativação inflamatória.

Possíveis fatores de risco associados a pior prognóstico seriam idade avançada (OR 1,10), SOFA escore alto (OR 5,65) e D-dímero acima de 1 μg/mL (OR 18,42). A identificação e acompanhamento desses fatores pode auxiliar na tomada de decisão de maneira mais precoce e otimizar desfechos clínicos.

Referências:
 

Huang C, Wang Y, Li X, Ren L, Zhao J, Hu Y et al. Clinical features of patients infected with 2019 novel coronavirus in Wuhan, China. The Lancet. 2020;395(10223):497-506.

Hu H, Ma F, Wei X, Fang Y. Coronavirus fulminant myocarditis saved with glucocorticoid and human immunoglobulin. Eur Heart J. 2020;ehaa190. doi:10.1093/eurheartj/ehaa190

Novel Coronavirus Pneumonia Emergency Response Epidemiology Team. The Epidemiological Characteristics of an Outbreak of 2019 Novel Coronavirus Diseases (COVID-19) - China, 2020. China CDC Weekly. http://weekly.chinacdc.cn/en/article/id/e53946e2-c6c4-41e9-9a9b-fea8db1a8f51. Published February 1, 2020.

Russell CD, Millar JE, Baillie JK. Clinical evidence does not support corticosteroid treatment for 2019-nCoV lung injury. The Lancet. 2020;395(10223):473-475. doi:10.1016/s0140-6736(20)30317-2.

Siddiqi H.K., Mehra M.R. COVID-19 Illness in Native and Immunosuppressed States: A Clinical-Therapeutic Staging Proposal. Journal of Heart and Lung Transplantation (2020). doi: https://doi.org/10.1016/j.healun.2020.03.012

Zhou F, Yu T, Du R, et al. Clinical course and risk factors for mortality of adult inpatients with COVID-19 in Wuhan, China: a retrospective cohort study. Lancet. 2020;395(10229):1054–1062. doi:10.1016/S0140-6736(20)30566-3

Últimas notícias sobre o Coronavirus

diretriz-telemedicina.jpg

EMERGÊNCIA

GLOBAL

ATENÇÃO

NACIONAL

ESTE WEBSITE, DESENVOLVIDO PELA SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, TEM COMO OBJETIVO COLABORAR COM AS AUTORIDADES SANITÁRIAS NACIONAIS E INTERNACIONAIS, DIVULGANDO INFORMAÇÃO CIENTÍFICA A RESPEITO DA PANDEMIA DE CORONAVÍRUS SARS-Cov-2 (COVID-19), PRIMEIRO NOTIFICADO NA CHINA EM 31 DE DEZEMBRO DE 2019, E ATUALMENTE DISSEMINADO EM TODO O MUNDO.
 

ESSA PÁGINA DEVE SER VISITADA DIARIAMENTE PARA QUE DADOS ATUALIZADOS SEJAM DO CONHECIMENTO DE TODOS, E EM ÚLTIMA INSTÂNCIA, RESULTEM EM MAIOR SEGURANÇA DA POPULAÇAO E DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE.

logo-cardiol.gif
fiocruz.png

SBC 2020  -  Todos os direitos reservados.